As plataformas que dizem ter gente
“Advogados especialistas, com revisão de inteligência artificial.” “Entrega em 6 horas, inclusive no feriado.” Está escrito. Vale a pena parar cinco minutos e ler o que essas frases dizem.
Nenhuma empresa é citada aqui, e isso é de propósito. As frases abaixo estão publicadas, hoje, em páginas e anúncios de quem vende peça jurídica no Brasil. Você as encontra em dez minutos de busca. O que interessa não é quem escreveu: é o que cada uma delas quer dizer.
1. “Advogados especialistas, com revisão de inteligência artificial”
Leia na ordem em que está escrito. Primeiro o profissional produz; depois a máquina revisa o profissional.
Faça a pergunta simples: desde quando a máquina revisa melhor que o profissional? Se a revisão final é da ferramenta, quem responde pelo que saiu — e quem confere a ferramenta?
Uma frase dessas não costuma nascer de uma convicção sobre qualidade. Ela nasce de uma necessidade de dizer que tem gente sem deixar de usar a máquina onde ela é mais barata.
Como se resolve isso na prática: pergunte quantas pessoas leram o seu processo, quanto tempo levaram, e peça o nome do profissional que vai conversar com você sobre a peça. A resposta a essas três perguntas não depende de contrato nem de política de privacidade.
2. “Entrega em 6 horas, inclusive no feriado”
Isso é vendido como virtude, e é a frase mais reveladora de todas. Some o que teria de acontecer nessas seis horas:
- receber o caso e os documentos;
- ler os documentos — que num processo em andamento costumam ser centenas de páginas;
- pesquisar jurisprudência favorável, conferindo ementa por ementa;
- redigir;
- revisar;
- entregar.
Agora repita a conta num domingo de feriado. Pergunte a si mesmo quem leu os seus documentos naquele domingo.
Aqui, 6 horas é só o tempo da revisão — e são dois juristas revisando.
A peça leva 3 dias úteis porque alguém a escreve, e porque alguém leu o processo antes de escrever. Prazo maior não é lentidão: é a evidência de que existe um processo de trabalho com gente dentro. Veja o que uma leitura realmente cuidadosa encontra em um documento em 300 laudas derrubou uma ação de R$ 240 mil.
3. “Sem alucinação” e “decisões reais”
Quase toda plataforma do setor carimba na tela uma promessa desse tipo. Uma escreve “sem alucinação” em caixa verde no meio do vídeo; outra precisa dizer que encontra “decisões reais” e que é “independente” de tal ferramenta.
Repare no que está acontecendo aí: a categoria inteira está se defendendo de uma acusação que ninguém fez em voz alta. E há um detalhe que resolve a conversa: todas juram; nenhuma mostra a prova.
Prova, aqui, tem forma concreta: a ementa oficial do tribunal, em PDF, anexada à peça, com tribunal, órgão julgador, número do processo e data de julgamento. Você abre e confere no site do tribunal. Leva trinta segundos, e não exige que você acredite em ninguém.
4. “A sua peça é feita por quem já fez dezenas iguais”
Essa está escrita como elogio, e é o argumento mais arriscado da lista — não por causa de quem escreve, mas por causa de quem lê do outro lado.
O Conselho Nacional de Justiça já entregou aos tribunais um sistema que examina petições iniciais procurando repetição de texto, pedido padronizado e semelhança de argumentação. Peça no mesmo formato, repetida, é exatamente o que ele procura. E outro sistema cruza processos, partes e advogados. Está detalhado em Berna, Bastião e Atalaia.
"Dezenas iguais" deixou de ser eficiência. Virou um padrão detectável com o seu nome embaixo.
5. “IA revisora protegendo seus documentos em tempo real”
Essa aparece antes da primeira dobra em algumas páginas, e é preciso parar para entender o que ela está dizendo: os documentos do seu cliente passam por um modelo.
Então a pergunta do advogado prudente não é sobre qualidade, é sobre destino: para onde vão os fatos, a estratégia, os nomes e os documentos do seu cliente depois do upload? Muitas empresas dizem que não treinam modelo com isso. Qual é a prova? Como você tem certeza?
Isso não é acusação: é uma pergunta que qualquer contrato deveria responder, e que vale a pena fazer antes de subir o processo de alguém.
O que fazer com tudo isso
Nada aqui diz que usar inteligência artificial é proibido — não é, e o Superior Tribunal de Justiça já decidiu isso. O que estas cinco frases mostram é mais simples:
A ferramenta não responde. Quem assina responde.
Se você contrata uma peça, faça as perguntas que os anúncios não respondem: quem leu, quanto tempo levou, e o que vem anexado junto com a peça. Se a resposta vier com PDF do tribunal, você não precisa acreditar em mais nada.
Quem escreve a peça é gente, e a ementa vem do tribunal
No Secretário Jurídico a peça é escrita à mão por um grupo de juristas, revisada por dois profissionais e entregue em Word — com a ementa oficial de cada jurisprudência citada anexada em PDF. Serviço exclusivo para advogados inscritos na OAB.
Primeira peça por R$ 129, sem pacote e sem mensalidade. Se não gostar, melhoramos quantas vezes for preciso; se ainda assim não ficar satisfeito, devolvemos o dinheiro.